Kaveh Akbar - Martyr!
“Eight of the ten commandments are about what thou shalt not. But you can live a whole life not doing any of that stuff and still avoid doing any good. That’s the whole crisis. The rot at the root of everything. The belief that goodness is built on a constructed absence, not-doing. That belief corrupts everything, has everyone with any power sitting on their hands.”
John Martin - The Angels Guarding Paradise at Night
Todos procuramos dar significado à nossa vida, todos procuramos um sentido para a nossa existência. É instintiva a repulsa que sentimos perante o vazio do universo, pois estarmos aqui, nesta terra, neste momento, tem de significar algo. Neste romance o protagonista, Cyrus, tem a ideia radical de inverter a lógica e de deslocar o desejo de sentido para a morte. O autor subverte um traço comum à espécie humana, esta ilusão de estar no centro do mundo e este optimismo ingénuo de se achar indispensável ao universo, para que seja o martírio a assumir essa vontade. Mas o que é o martírio?
Jules-Eugène Lenepveu - Antigone Gives Token Burial to the Body of Her Brother Polynices
O martírio pode ser entendido como um suicídio ritualizado, um sacrifício por uma causa transcendental. Nas suas origens mais primitivas, o mártir era aquele que testemunhava a sua fé até às consequências mais extremas, incluindo a morte. Este ritual significa a entrega total a algo, significa converter a perda da vida num testemunho. Mas não é a este tipo que o protagonista aspira.
Gustave Doré - Dante et Virgile dans le neuvième cercle de l’Enfer
Cyrus não ambiciona ser um mártir no sentido cristão ou islâmico da palavra, isto é, não pretende morrer em nome da sua fé. Contudo, é verdade que a própria palavra carrega consigo essa herança, introduzindo ainda mais turbulência na decisão do protagonista; Cyrus sente que a sua banal e normal vida não testemunha absolutamente nada; daí o seu desejo de que seja a morte a prova de algo maior.
Émile-Antoine Bayard - Illustration for Around The Moon by Jules Verne
A “sociedade do espetáculo” é uma boa denominação para a crítica que o autor faz da modernidade. Hoje em dia o martírio já não possui uma comunidade que o possa legitimizar. Aliás, é o vazio da modernidade, a ausência de qualquer espiritualidade inerente ao mundo tecnológico, que faz com o protagonista transforme um puro ideal em algo contaminado pela lógica do ego e do narcisismo. O martírio deixa de ser um sacrifício pelo Outro ou por Algo, mas apenas uma forma de garantir um legado pessoal, uma forma de inscrever o nosso nome nas linhas mediáticas do dia.
Paul Krafft - Monument of Skulls
Em suma, a modernidade, o capitalismo de vigilância e, até certo ponto, o tecnofeudalismo, fizeram com que este sacrifício máximo tenha ficado contaminado pela solidão, pelo narcisismo e pelo desejo mediático de significado individual. Como escapar então deste caminho sem saída?
Virginia Frances Sterrett - Ah, ha! you are at last in my domain, little fool!
O autor afasta de imediato os antigos dogmas, mostrando que o martírio como forma de dar sentido à vida através da morte é uma ilusão. O verdadeiro sentido da vida ocorre pelo retorno à comunidade e aos vínculos humanos, pela aceitação da inexistência de sentido inerente à vida, e pelo mergulho na arte como forma de sobrevivência e não como fim. Paradoxalmente, a vida é banal e incompleta, mas é isso que faz dela tão milagrosa.