Kazuo Ishiguro - Nunca me Deixes | Tradução de Rui Pires Cabral
“O momento de compreender que lá fora, no mundo, existem pessoas como a Madame, pessoas que, embora não nos odeiem nem nos desejem mal, estremecem de pavor perante a ideia da nossa existência - da nossa origem e do nosso destino - e que reme a simples possibilidade de lhes tocarmos. A primeira vez que nos vemos reflectidos desse modo nos olhos de alguém é um momento de frialdade. É como olhar para um espelho que utilizamos desde sempre e descobrir de súbito algo de diferente, algo de estranho e perturbador.”
John La Farge - Three Saints (Alternate Study for Chapel Windows, Caldwell House, Newport)
Kathy, a narradora deste romance, simboliza o aspecto nostálgico da tríade, rememorando o passado em busca de reflexão e compreensão. Ruth e Tommy, os seus amigos de infância, representam, respectivamente, o desejo da ambição e a vontade ser compreendido. Existe uma interdependência entre estas personagens, desde o mais tenro momento da sua infância até ao final doloroso que as espera. Muito da narrativa centra-se naquilo que não é dito, um oculto conhecimento que é escondido não só das personagens, mas também do leitor. É apenas aos poucos que vamos descobrindo a realidade grotescas.
O que mais me incomodou neste romance foi a placidez irradiada por todas as personagens. Como se não tivessem opção, como se não houvesse sequer a possibilidade de haver uma vida diferente, uma vida melhor. A partir de certo ponto as personagens vivem acreditando em consequentes adiamentos, com a ilusão de que o destino pode ser suspenso por rituais ou méritos. Mas o fim é inescapável. E, ao invés de procurarem uma extensão do seu prazo de validade através do amor, haveriam simplesmente de romper as amarras da distopia que os prende e rebelar-se contra quem os mantém vivos como gado.
A forma de quebrar um cavalo é dar-lhe cada vez mais rédea, fazendo-o pensar que aquilo que sente é liberdade. E fizeram o mesmo com estas crianças; desde cedo habituaram-nas a pensar que nada havia a fazer, que era esta a realidade, que os seus corpos apenas estavam emprestados. Aliás, desde novos que têm vindo a ser programados para um destino trágico. A vida inteira destas crianças é um ritual de preparação o sacrifício. Mas neste caso o objectivo não é a comunhão com o divino, mas sim a perpetuação e propagação de um ser que de divino nada tem, especialmente quando assim trata outros seres humanos.
George Inness - The Lonely Farm, Nantucket
O próprio Hailsham, o local idílico onde estas crianças nascem e crescem, funciona como uma espécie de Jardim do Éden, um lugar de inocência onde são aprendidas e manifestadas as artes visuais e plásticas, onde as crianças brincam umas com as outras e onde são protegidas da realidade grotesca que as aguarda. E, contudo, à semelhança da história bíblica, assim que o conhecimento proibido passa a ser conhecido, as crianças são excomungadas e expulsas, e inicia-se verdadeiramente a a ambiguidade moral e o sofrimento.
Constantin Mitrofanovitsh Flórinsky - Olga Victorovna Dmitrieff
Eu adorei este livro. Habitualmente, quando leio um livro tão aclamado, acabo por me desiludir, pelo que, desta vez, isolei-me deliberadamente de toda e qualquer informação sobre o mesmo, o que acabou por se revelar uma tarefa árdua, devido às celebrações que rodearam as duas décadas vividas do livro. Mas ainda bem que o fiz, porque pude acompanhar as personagens na sua viagem e nas suas descobertas.