A decisão de adoptar a Cecília não foi fácil nem repentina. Não foi um impulso, longe disso, mas o resultado de um longo processo de ponderação, conversas e condições práticas. Embora o amor tenha florescido e crescido, tratou-se de um amor planeado. A exigência de garantir que havia estabilidade financeira e emocional para receber a Cecília no nosso lar foi imprescindível. A consciência da responsabilidade foi o nosso primeiro acto de amor. E, assim, a decisão de adoptar a Cecília foi uma das melhores da nossa vida.
O amor pela Cecília extravasa todos os limites. Este pequeno tufo de pêlo passou a ser o nosso centro afectivo, e do dia de adopção em diante moldou para sempre o nosso quotidiano: rotinas alteradas, tempo dedicado, carinho constante. A Cecília transformou o modo como olhamos para a vida doméstica: menos como uma tarefa a despachar, mais como um espaço que ansiamos por habitar. A adopção ensinou-nos que o amor não se mede pela espécie, mas pela qualidade da ligação.
Cuidar da Cecília é uma das linguagens que utilizamos para comunicarmos com ela (a outra são os mil beijinhos que ela diariamente recebe). E cuidar não é apenas limpar e alimentar; é também brincar com ela, antecipar as suas necessidades, observar o seu comportamento e interpretar os seus movimentos.
Este cuidado levou também à criação de uma linguagem afectiva própria: gestos, sons, comportamentos que só nós conhecemos e que apenas fazem sentido para nós. Gestos que nos isolam e apartam e levam à formação de um núcleo afastado do resto do mundo, onde nos sentimos em segurança; onde nos sentimos em casa.
É um amor silencioso e constante, uma chama que não se apaga nunca.
A Cecília ensinou-nos paciência, atenção, presença. A entrada da Cecília na nossa vida transformou a nossa relação e cimentou-a, tornando-nos numa família em sentido profundo, em sentido real.
É um amor que não exige nada em troca, mas que dá muito mais do que recebe. E espero que assim continue durante longos anos.